
Leite Derramado é o quarto livro do músico e escritor Chico Buarque e foi publicado este ano pela editora Companhia das Letras.
Durante a leitura do livro, perpassamos por toda a vida do protagonista, Eulálio, desde sua infância até a velhice, na qual desnuda-se em suas memórias, num diálogo perdido e obssessivo no qual conta suas memórias, seja por necessidade de entendê-las ou por pura senilidade.
Filho de uma tradicional família do Rio de Janeiro, Eulálio tem a vida marcada por sucessivas perdas – esposa, dinheiro, posição social, o amor da filha e por fim, pouco a pouco a perda parcial de suas próprias memórias que se transformam em sombras das quais ele pouco consegue distinguir.
O narrador faz com que conheçamos pouco a pouco suas sutilezas e obliterações enquanto conta-nos sua vida.
Embora haja muita espontaneidade na narrativa, captamos as ironias do autor ao perceber que Eulálio se enreda em suas próprias interpretações e perpassa para o leitor suas incertezas e delírios.
Suas ações delineiam todo o fio da história e mesmo após repetições exaustivas dos mesmos fatos, embaralhados em sua cabeça, o autor parece nos atrair o tempo todo na tentativa de desvendar a mentalidade de Eulálio que é um personagem rico numa complexidade brilhantemente construída por Chico Buarque.
Inclusive, acho que a consagração de Chico como escritor encontra-se no desenvolvimento de seu gênero narrativo.
Por horas detinha minha atenção mais nas palavras do que no enredo, sentindo-me fascinada por suas descrições e mais do que isso, pelas palavras que são jogadas nas entrelinhas.

O ponto de partida para percebermos a competência de um autor que escreve o gênero narrativo em que há apenas um narrador na trama, é quando conseguimos ultrapassar os limites das palavras e penetramos em alusões das quais o próprio narrador é inconsciente, quando a nossa capacidade de compreensão do personagem não se compromete pela parcialidade daquele que narra os fatos de acordo com sua própria visão, percebendo suas ironias e paradoxos.
As sutilezas do personagem são transmitidas pelo autor para o leitor sem que o próprio personagem perceba, isso é fascinante.
Chico sempre foi um escritor de estilo, no entanto, acho que nessa obra pela primeira vez os personagens atingiram e cativaram os leitores de modo a tornar a leitura realmente interessante.
Mesmos os personagens pequenos são completos a medida que são exploradas suas peculiaridades e não se tornam descartáveis na trama.
Este livro me passou a sensação de que Chico atingiu pela primeira vez em sua obra literária a capacidade de entrar em sintonia com um personagem. E desta forma Chico deu a luz a um livro que foi tecido conforme sua idealização e está a altura do seu pensamento.







